APIs deixaram de ser um tema apenas técnico para se tornarem parte da infraestrutura crítica do mercado financeiro. Em vez de integrações manuais, planilhas e arquivos trocados por e-mail, instituições financeiras agora expõem dados e serviços por meio de interfaces padronizadas, seguras e automatizáveis. No contexto de bancos, corretoras, fintechs e empresas de meios de pagamento, APIs são a ponte que conecta sistemas internos, aplicativos de clientes, provedores de dados, carteiras digitais, plataformas de investimento e até serviços de análise de risco em tempo real. De forma simples, uma API (Application Programming Interface) é um conjunto de regras que permite que um software “converse” com outro. No Open Finance, por exemplo, ela é o canal padronizado que permite integrar contas, extratos, cartões, investimentos e outros dados financeiros, sempre com consentimento do cliente e seguindo normas técnicas e regulatórias.
Da agência bancária ao app: onde as APIs atuam no ecossistema financeiro
Open Banking, Open Finance e a padronização das integrações
No Brasil, o uso de APIs no sistema financeiro ganhou força com o Open Banking, evoluindo para o Open Finance, coordenado pelo Banco Central. O objetivo declarado do programa é aumentar a eficiência dos mercados de crédito e pagamentos, promovendo inclusão, competição e inovação no sistema financeiro. Para isso, os participantes são obrigados a adotar padrões técnicos comuns de APIs, descritos em manuais oficiais e na documentação do Open Banking/Open Finance Brasil, que estabelecem como as APIs devem ser desenvolvidas, autenticadas e protegidas. Essas APIs permitem que instituições autorizadas acessem dados de contas, iniciação de pagamentos, operações de crédito e informações de investimentos, sempre mediante consentimento explícito do cliente e observância de normas como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A documentação do ecossistema destaca que o desenho das APIs precisa seguir princípios de segurança, disponibilidade e padronização, com foco na proteção dos dados compartilhados em cada fase do Open Finance. Na prática, isso significa que um ERP pode se integrar via API para conciliar extratos bancários automaticamente, uma fintech pode consolidar contas de diferentes bancos em um único aplicativo e uma empresa pode conectar seus sistemas de cobrança diretamente a iniciadores de pagamento, reduzindo atritos e erros operacionais.
Trading eletrônico e o papel do protocolo FIX
No ambiente de negociação em bolsa e mercados de capitais, as APIs também são fundamentais, mas com características diferentes. Uma das tecnologias mais importantes é o protocolo FIX (Financial Information eXchange), um padrão de comunicação criado especificamente para troca eletrônica de informações sobre valores mobiliários. O FIX é descrito como um protocolo de comunicação eletrônica para troca de informações em tempo real sobre transações de títulos, amplamente utilizado em negociações pré-trade, trade e pós-trade. Enquanto APIs REST e WebSocket são comuns em integrações de aplicações web e mobile, o FIX continua sendo o “idioma” dominante entre corretoras, provedores de liquidez e plataformas de high-frequency trading, justamente por oferecer baixa latência e alto desempenho. Estudos recentes mostram que o FIX permanece o padrão de fato para disseminação de preços e informações de negociação entre participantes do mercado, compatível com diversas tecnologias de rede e cada vez mais presente também em mercados de criptoativos. Com isso, o ecossistema de APIs no mercado financeiro combina, muitas vezes, diferentes camadas: FIX para o fluxo crítico de ordens e cotações em tempo real e APIs REST ou WebSocket para cadastros, relatórios, histórico de operações, dashboards e integrações com sistemas corporativos.
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Pagamentos e o avanço do open banking global
Fora do Brasil, o movimento de abertura via APIs ganhou destaque com o PSD2 na Europa, a segunda Diretiva de Serviços de Pagamento. O PSD2 é uma norma europeia que busca promover competição, inovação e segurança no setor de pagamentos, obrigando bancos a fornecer acesso a dados de contas e iniciação de pagamentos por meio de APIs abertas e seguras, desde que o cliente autorize. Esse arcabouço deu base ao conceito de open banking: bancos precisam expor APIs que permitam a terceiros, como provedores de informações de conta (AISPs) e iniciadores de pagamento (PISPs), criar novos serviços para consumidores e empresas. Com isso, surgiram aplicativos que consolidam saldos de múltiplos bancos em um único painel e soluções que permitem pagamentos diretos da conta do cliente, sem intermediários tradicionais, a partir de qualquer dispositivo conectado.
Benefícios estratégicos das APIs para o mercado financeiro
Quando bem planejado, o uso de APIs no mercado financeiro vai muito além da integração técnica. Para instituições, elas reduzem o acoplamento entre sistemas, aceleram o lançamento de produtos, simplificam a conexão com parceiros e diminuem custos de manutenção de legados. Em vez de projetos longos de integração ponto a ponto, bancos e fintechs passam a utilizar catálogos de APIs que podem ser reutilizados em várias jornadas de cliente, como abertura de conta, concessão de crédito, investimento ou seguros. Do ponto de vista do cliente final, as APIs viabilizam experiências mais fluidas, com menos fricção. Abrir conta pelo celular, assinar digitalmente contratos, autorizar compartilhamento de dados com poucos cliques, ver todos os bancos em um único app ou contratar crédito com análise em segundos são exemplos de jornadas que só se tornam escaláveis com integrações robustas. O próprio Banco Central aponta, em sua comunicação sobre Open Finance, que a iniciativa busca aumentar a eficiência e a competição, o que tende a resultar em produtos mais adequados e condições mais vantajosas para pessoas e empresas. Outra vantagem é a possibilidade de construir modelos de negócios baseados em Banking as a Service (BaaS) e Embedded Finance. Nesse modelo, uma instituição licenciada oferece suas capacidades financeiras por API, enquanto marcas de outros setores integram serviços como conta, cartão ou crédito diretamente em seus aplicativos, criando novas fontes de receita e fidelização sem precisar se tornar, elas mesmas, instituições financeiras completas.
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Segurança, governança e requisitos regulatórios
O aumento da exposição de serviços via APIs traz desafios importantes de segurança e governança. No contexto do Open Finance brasileiro, a documentação oficial enfatiza que o desenho e a implementação das APIs devem seguir princípios de segurança, considerando padrões técnicos para proteger o ecossistema, seus participantes e os dados compartilhados em cada fase. Na prática, isso significa autenticação forte, autorização granular, criptografia ponta a ponta e rastreabilidade completa das chamadas. Materiais técnicos sobre APIs de Open Finance destacam o uso de padrões como OAuth 2.0 para autenticação, FAPI (Financial-grade API) e criptografia mTLS, todos exigidos pelo Banco Central, além da aderência à LGPD para garantir privacidade e controle dos clientes sobre seus dados. Do lado da infraestrutura, normas recentes do Banco Central passam a detalhar inclusive requisitos mínimos de desempenho e disponibilidade. Uma instrução normativa publicada em 2024, por exemplo, estabelece que a infraestrutura das instituições que provêm APIs no Open Finance deve suportar, no mínimo, centenas de requisições simultâneas por segundo, garantindo capacidade adequada para horários de pico e estabilidade de serviço.
APIs deixaram de ser apenas uma solução de TI e se consolidaram como a base invisível que sustenta a transformação digital no mercado financeiro. Elas viabilizam a lógica de ecossistema, permitem que bancos, fintechs, empresas de outros setores e desenvolvedores independentes colaborem em tempo real, integrem serviços, compartilhem dados com segurança e criem experiências muito mais simples e eficientes para o usuário final. Em um cenário de Open Finance, PSD2, pagamentos instantâneos, banking as a service e finanças embutidas, quem domina APIs não está apenas acompanhando a evolução tecnológica, mas ajudando a moldar o futuro dos serviços financeiros.
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